O título deste post é uma frase que não é originalmente minha, mas que a fiz minha, assim que a li pela primeira vez.
Quem não morreu em Santa Maria hoje?
Tal tragédia nos atravessa com tamanha intensidade por que, no fundo, sabemos que poderia ser qualquer um de nós ou de nossos familiares a estar nessa terrível estatística de morte que não pára de aumentar. Poderia ser eu, poderia ser você, poderia ser seu irmão, irmã, primos, filhos, amigos. Mas por algum motivo não foi nenhum de nós, foram eles. Eles que eu nem conheço, mas sinto como se fossem irmãos. Como se fosse eu.
Eu, que me incluo na categoria de "jovem" e "universitária", que invariavelmente poderia estar numa festa como esta, em uma boate, aproveitando a noite numa festa com os amigos. Eu, que da forma que me conheço, sei que estaria ali, na beira do palco para curtir a música da forma mais intensa possível. Eu que, quase nunca me preocupei com essas questões de incêndio das vezes que fui em boates.
Não há formas de não pensar que poderia ser qualquer um de nós. E digo qualquer um de nós, por que sabemos bem das condições de fiscalização das boates e casas noturnas. Todas com a mesma característica arquitetônica: fechada, quase sem ventilação com a função de isolar o som, com as entradas e saídas pequenas e estreitas. Boates estas, pouco fiscalizadas pelas autoridades, onde os aparatos para incêndio são os mínimos exigidos e aos quais não oferecem quase nenhum tipo de cuidado e informação para que, em caso de necessidade, as pessoas possam se proteger ou reagir de forma segura.
Tragédias como essas acontecem, chocam e inicialmente paralisam. Mas de certa forma, algum tempo depois colocam a sociedade em movimento. Colocam para pensar. Pensar nas condições desses locais que tem como função maior oferecer diversão àqueles que a procuram, mas será que oferecem segurança? Colocam as autoridades em alerta para que outras como estas não voltem a acontecer. Fatalidades fatais.
O que é mais triste, e muitas vezes revoltante, é que é necessário tragédias como estas acontecerem, onde mais de 250 pessoas precisam morrer, para que as pessoas se conscientizem desses perigos e tomem atitudes. É preciso uma tragédia como essas para acordar um país (literalmente), e fazê-lo pensar na dor da morte de tantas famílias, e de tantas outras que não tem/tiveram a mesma visibilidade. Afinal, não é difícil pensar que esse tipo de tragédia acontece com mais frequência do que podemos supor, mas que, por serem de uma proporção infinitamente menor, nem chegam aos nossos ouvidos. Quantas famílias já sofreram, sofrem e ainda vão sofrer por situações que poderia ter sido evitadas?
E a pergunta que fica acaba sendo: A culpa é de quem? É culpa de alguém? Podemos ditar culpados numa tragédia dessa proporção? Podemos deixar de apontar culpados? E esses "culpados" seriam quem? Apenas do segurança que, sem saber direito o que estava acontecendo, cumpria sua função exigida, de não deixarem as pessoas sair sem apresentar as comandas pagas, correndo o risco de perder o emprego (caso fosse um trote, para o azar dele e de todos, não era), sendo que tem gente muito maior por trás disso tudo? Sendo que existem negligências muito maiores encobertas nas cinzas que o fogo deixou?
E enquanto isso, centenas de famílias ainda ligam para os celulares nos bolsos de seus filhos, que estão estirados no chão de um ginásio por falta de espaço, sem resposta. Quem vai cuidar dessas pessoas? Em quem tais pessoas vão se ancorar?
Aproveito para compartilhar aqui uma imagem que está circulando no facebook, que solicita profissionais de saúde e da área psi, para ajudar com os famíliares das vitimas de Santa Maria. Se eu pudesse, eu com certeza já estaria lá.
Enfim, finalizo, portanto, com o texto do Fabrício Carpinejar que me inspirou a escrever, e que me ofereceu um título ao post de hoje.
A MAIOR TRAGÉDIA DE NOSSAS VIDASFabrício Carpinejar
Morri em Santa Maria hoje. Quem não morreu? Morri na Rua dos Andradas, 1925. Numa ladeira encrespada de fumaça.
A fumaça nunca foi tão negra no Rio Grande do Sul. Nunca uma nuvem foi tão nefasta.
Nem as tempestades mais mórbidas e elétricas desejam sua companhia. Seguirá sozinha, avulsa, página arrancada de um mapa.
A fumaça corrompeu o céu para sempre. O azul é cinza, anoitecemos em 27 de janeiro de 2013.
As chamas se acalmaram às 5h30, mas a morte nunca mais será controlada.
Morri porque tenho uma filha adolescente que demora a voltar para casa.
Morri porque já entrei em uma boate pensando como sairia dali em caso de incêndio.
Morri porque prefiro ficar perto do palco para ouvir melhor a banda.
Morri porque já confundi a porta de banheiro com a de emergência.
Morri porque jamais o fogo pede desculpas quando passa.
Morri porque já fui de algum jeito todos que morreram.
Morri sufocado de excesso de morte; como acordar de novo?
O prédio não aterrissou da manhã, como um avião desgovernado na pista.
A saída era uma só e o medo vinha de todos os lados.
Os adolescentes não vão acordar na hora do almoço. Não vão se lembrar de nada. Ou entender como se distanciaram de repente do futuro.
Mais de duzentos e cinquenta jovens sem o último beijo da mãe, do pai, dos irmãos.
Os telefones ainda tocam no peito das vítimas estendidas no Ginásio Municipal.
As famílias ainda procuram suas crianças. As crianças universitárias estão eternamente no silencioso.
Ninguém tem coragem de atender e avisar o que aconteceu.
As palavras perderam o sentido.


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