Semana passada, no noticiário regional da minha cidade, transmitiram uma reportagem que me incomodou muito desde o primeiro momento que assisti: Escola
de Princesas. Sim, alguma empresária que estava com muito dinheiro meio que sem ter o que fazer na vida (ok, ok, assumo meu preconceito aqui), abriu uma escola em que meninas de 4 a 15 anos são
matriculadas durante as férias para aprenderem "boas maneiras", como se maquiar e como serem lindas e princesas.
Bem, para eu continuar a conversa, é importante que vocês vejam a reportagem que pode ser assistida clicando aqui.
Qual
é o problema de uma Escola de Princesas afinal? Não é bom uma menina querer ser
uma princesa, linda, bondosa e carismática?
Vou começar a falar sobre isso contando uma historinha...
Era uma vez em um tempo, tão tão distante, em que as mulheres eram
proibidas de viver suas próprias vidas. Suas únicas funções eram, servir aos homens que
lhe cercavam (inicialmente os pais, posteriormente os maridos). Eram tempos muito difíceis, em que a senso comum as faziam acreditar que o "mundo era assim mesmo" que as mulheres nasciam somente para serem oprimidas. Havia uma subserviência explícita, onde aquelas que por acaso se rebelasse contra essas "normas", eram prontamente julgadas, rechaçadas, reprimidas e muitas vezes silenciadas (das piores formas possíveis). Era um tempo em que as mulheres não tinham voz, nem vez. Não podiam votar (Ora essa, imaginem! Mulher votando? Pff), nem escolher sobre seu próprio futuro (seja ele qual fosse).
Esses tempos meus amigos e minhas amigas, se mantiveram durante muitos e muitos anos. Tempos onde o preconceito contra as mulheres era permeado até mesmo entre as próprias mulheres. Afinal, estas já cresciam aprendendo que o lugar da mulher na sociedade é o se servir, acatar, acolher, ser boa mãe, boa dona de casa, e estar sempre bem (e bonita) para seu marido, e ponto. E o que quer que fosse que acontecesse contra ela, de certa forma a culpa era dela mesma, que não se resguardou o suficiente para que tal situação não acontecesse (qualquer semelhança com a realidade atual não é mera coincidência).
Eram tempos em que mulheres não podiam sentir prazer em relação a nada ou ninguém. Estas atribuições eram coisas das "mulheres da vida" as esposas, educadas e dóceis, não podiam fazer se prestar a esses papéis, deviam obedecer ao marido e dar-lhes prazer, apenas.
Eram tempos em que os homens eram considerados seus "donos" e sob qualquer deslize dessas mulheres, a honra do marido poderia ser lavada com sangue. Ora essa, mas é obvio! A honra dos homens valia muito mais do que a vida de qualquer mulher. Isso era natural! Mulheres presas, oprimidas, silenciadas, abafadas por sua própria sociedade, patriarcal e machista. Era natural.
E aí você pode me dizer: "Nossa, ufa! Ainda bem que esses tempos não existem mais!"
Hmm... será que não?
Sim, de fato podemos dizer que muitas coisas mudaram dessa época pra cá, desde então foram ocorrendo modificações concretas na sociedade: mulheres já podem votar, conquistaram seus espaços no mercado de trabalho. O que mais essas mulheres querem afinal? (Um bando de insatisfeitas!)
Muito simples meu caro(a), elas querem dignidade. Uma palavrinha bonita e cheia de significados. Conquistar o mercado de trabalho, serem independentes e livres financeiramente, terem mais opções quanto a escolha de seus futuros foram grandes avanços. Porém não é só isso. É preciso respeito!
Por mais que possam dizer que "os tempos mudaram", ainda se sabe (basta olhar ao seu redor com um pouquinho mais de atenção) que as mulheres continuam sofrendo aquelas mesmas violências que aconteciam no século passado, porém, agora de uma forma muito mais cruel: a violência é velada (na verdade, muitas vezes ela é escancarada mesmo).
Sim meu caro (a) leitor(a), essas coisas ainda acontecem! Quantas vezes na semana você vê na mídia caso de mulheres violentadas, estupradas, assassinadas por homens? Quantas vezes você já leu sobre o fato de que apesar de as mulheres já terem conquistado seus espaços no mercado de trabalho, elas continuam tendo suas remunerações aquém às dos homens? Quantas vezes você já ouviu falar que mulheres fazem jornadas triplas (trabalho, casa e filhos) enquanto os maridos (em sua maioria, não quero generalizar nada aqui) continuam apenas com os seus trabalhos externos aos domésticos. "Bah, isso é serviço de mulher."
Quantas vezes você já viu mulheres sendo desrespeitadas em seus direitos, simplesmente por serem mulheres? Quantas vezes você já ouviu a clássica expressão do "sexo frágil"?
Quantas vezes você já viu mulheres sendo desrespeitadas em seus direitos, simplesmente por serem mulheres? Quantas vezes você já ouviu a clássica expressão do "sexo frágil"?
Mas o que acontece, caro (a) leitor(a), é que há muitos anos, desde aqueles primórdios da historinha que eu comecei contar no início do post, pessoas lutam para que as mulheres ocupem seus espaços e sejam respeitadas. Lutam para que as violências sofridas por elas deixem de serem banais e naturais e passem a ser um problema público, passível, no mínimo, de indignação. Existem lutas para que as mulheres parem de serem taxadas por estereótipos e passem a serem vistas como sujeitos da suas próprias vidas, de forma livre, sem qualquer tipo de condenação ou discriminação.
E é exatamente aí que entra minha crítica em relação à Escola de Princesas.
E é exatamente aí que entra minha crítica em relação à Escola de Princesas.
Por mais que essa escola tenha uma pretensão educativa, os preceitos que estão por trás dessa "educação" são muito perigosos e nocivos. São conceitos bastante conhecidos por nós, mas que são jogados para debaixo do tapete para que não vejamos a sujeira que está ali. São aqueles preceitos que acabam abarcando a subserviência velada para as mulheres. São ideias que, querendo ou não, acabam resgatando valores e costumes da época da história que eu contei a cima, em que a mulher tem que estar sempre linda, ser bem educada, e estar de acordo com os valores éticos e morais. Valores morais que, geralmente, condenam quem foge ao padrão pré estabelecido pela sociedade.
Uma escola em que entre as propostas de sua missão está o de "(...) fazer as meninas resgatarem a essência feminina que existe em seus corações." Essência! Como se fosse algo inato e natural às mulheres. Ao ler isso, depois de me revirar de indignação com que estava escrito, me fez me lembrar de uma citação muito pertinente da grande Simone de Beauvoir, que é a seguinte:
"Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino. Somente a mediação de outrem pode constituir um indivíduo como um Outro." (BEAUVOIR, Simone. O Segundo Sexo 2)
E essa citação, no dia seguinte ao que seria o seu aniversário de 105 anos, é muito bem vinda. Mas prossigamos...
Desta forma, ao colocar a missão da escola em contraponto ao que nos diz Simone de Beauvoir, começo a me questionar (como de praxe):
Que tipo que mulheres estão sendo constituídas com essa "educação para princesas"?
Quais são os valores que serão considerados como fundantes na vida dessas meninas?
Quais são os valores que serão considerados como fundantes na vida dessas meninas?
Considerando que uma das atividades principais da escola é aprender a se maquiar e se portarem como "mini adultas", que tipo de mediação está sendo feita para que essas meninas se constituam?
Nos burburinhos que essa história rendeu às redes sociais eu li muitas coisas, chamaram de "radicais" quem fazia crítica contra a escola. De fato, eu não sou adepta aos determinismos, não acredito que uma criança que participe dessa escola obrigatoriamente será uma mulher com ideias fúteis e machistas. Porém, não podemos desconsiderar a influência e a importância que qualquer tipo de atividade tem na formação do sujeito, principalmente nesta idade. Aprende-se MUITO na infância, e em geral são coisas que nos marcam pro resto da vida. Então me desculpem, mas eu prefiro pecar pelo excesso! E aceitar uma escola dessas, considerando que uma ou outra menina possa vir a sair dali revoltada e se rebele contra esse sistema massacrante não é o suficiente pra mim. Todas elas tem que ter o direito de se formarem criticamente, e não acredito que seja numa escola que "resgate a princesa que existe em toda menina" que a reflexão vai acontecer.
E cá entre nós, aprender a ser princesa, que "toma chá das 5" num país republicano e tropical como o nosso?
Além de tudo, ainda existe massiva e acrítica importação de uma cultura que não é a nossa. Faz-se acreditar que os costumes das princesas lindas, loiras e europeias são corretos, e que todos os outros estão errados. Ensina-se que a preocupação com a beleza, estar bem portada à mesa e saber tomar chá são os valores que realmente importam.
E não há como não dizer que, com isso cria-se vários abismos, pois, ao invés de agregar, segrega-se. Quantas meninas tem a chance de estar nessa escola para serem essas lindas princesas? (considerando que, obviamente, trata-se de uma escola privada).
Não é possível que tenhamos que engolir isso à seco como se fosse "normal", "natural" ou "necessário". Não, não é! Crianças tem que estarem abertas às possibilidades e não serem fechadas a isso.
E não venham me dizer que as princesas fazem parte do lúdico da infância e que toda menina sonha em ser uma princesa. Isso é o que a mídia propagandista consegue empurrar para nós, goela abaixo, e aí, nós aceitamos como verdade. Se não existissem as propagandas das zilhões de Barbies princesas pulando na nossa cara na TV, todos os dias e o ano inteiro, e os contos de fadas que a Disney fez questão de distorcer para ficar mais comercial, aposto que essa história de princesas não seria o "sonho de toda menina". Princesas, lindas, ricas, bem maquiadas e loiras não devem ser as referências dessas meninas, esse tema tem que ser trabalhado e conversado com muito cuidado com as crianças. Por quê a partir do momento que isso se instala como padrão de beleza da princesa, instala-se também a ideia de que quem não se encaixa nesses padrões não serve, e cá entre nós, que no nosso Brasilzão de meu Deus, são pouquíssimas as que se encaixam!
Não temos que querer encaixar as crianças em estereótipos, temos que deixá-las livres! Os referenciais para as crianças devem ser aqueles que respeitem as diferenças e que as belezas não sigam um padrão previamente estabelecidos.
Nas férias, essas meninas deviam estar brincando, se sujando, de preferência com suas famílias e pessoas próximas, pois essas sim são as verdadeiras referências para as crianças. Devem se divertir, ao invés de serem colocadas em outro tipo de escola que cria regras fúteis e docilizam seus corpos e mentes.
Nas férias, essas meninas deviam estar brincando, se sujando, de preferência com suas famílias e pessoas próximas, pois essas sim são as verdadeiras referências para as crianças. Devem se divertir, ao invés de serem colocadas em outro tipo de escola que cria regras fúteis e docilizam seus corpos e mentes.
Pois bem, eu poderia ficar até amanhã aqui falando sobre isso... mas vou parar por aqui. Acho que já dei meu recado :)
E quero finalizar esse texto com mais uma imagem deliciosa que encontrei na internet, em uma página (todas deste post são da mesma pág.) em que suas criadoras também repudiaram a Escola de Princesas, criaram então a Escola de Ogras (que por enquanto, é só uma página no facebook... mas quem sabe?)
E quero finalizar esse texto com mais uma imagem deliciosa que encontrei na internet, em uma página (todas deste post são da mesma pág.) em que suas criadoras também repudiaram a Escola de Princesas, criaram então a Escola de Ogras (que por enquanto, é só uma página no facebook... mas quem sabe?)
Por um mundo com menos escolas de princesas e mais infâncias!
NOTA DE EXPLICAÇÃO SOBRE MEU DESAPARECIMENTO DESTE BLOG:
Ok, ok. Eu sei, simplesmente desapareci. I know! Sim eu sumi bastante. Muitas coisas aconteceram desde a última postagem. Não quero que pensem que este blog existiu somente enquanto existiu greve, por mais que tenha sido, basicamente isso que aconteceu.
O fato é que poucos dias depois do meu último post, mais especificamente 15 dias depois, a greve nas federais teve seu fim, assim como meu tempo livre. E como eu pretendo me formar um dia, tive que reorganizar algumas prioridades. Por isso sumi, mas estou de volta. E com a corda toda!



A minha versão de princesa tem direito a tatuagem, cabelo semi-vermelho curto e all-star sujo. Mas com certeza a minha versão não tem espaço numa escolinha dessas.
ResponderExcluirEngraçado como com o tempo o feminino e o masculino foram ficando mais solúveis e de vez em sempre surgem essas tentativas mais do que falhas de se capturá-los de volta. Se vamos ensinar meninas a serem mulheres, primeiro temos que ter isso em mente, ensinar a ser mulher e não princesa. E ser mulher é vasto de mais pra se encapsular em vestidos, maquiagem, chá das cinco, arrumar a cama e cabelo brilhante. Além do que, acho mais do que justo que elas aprendam a ser mulheres com as mães, as avós, as tias, ou quem tiverem como referência feminina na família. Mandá-las pra uma escolinha pra aprender a ser mulher por meio de uma desconhecida soa como uma violência pra mim...
Adorei o post, amiga. Seu jeito de escrever é muito leve, suave e Laena, sabe?
;*
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluir... a versão de princesa da srtª Carol Martins aí em cima é deveras muito mais interessante... ;]
ResponderExcluirEu também acho xD
Excluir♥ estou in love com esse texto ♥
ResponderExcluirparabéns pelo texto!
ResponderExcluirMuito bem colocado. Muitas pessoas, com um pingo de sensatez e imparcialidade na mente, se chocaram com essa notícia. Certeza!
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