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25 de julho de 2012

Gabriela e a ótima oportunidade para discutir sobre o machismo e discriminação de gênero.

Eis que estou aqui de bobeira, já de pijamas, no meu sofá mexendo na internet e olhando e-mails; a TV está ligada, na Rede Globo e começa a novela/minissérie (ainda não entendi exatamente do que se trata), Gabriela.
No capítulo de hoje mostrou, basicamente,  o drama (acho legal falar assim em relação a personagens de novelas haha) da personagem Lindinalva (Giovanna Lancelotti) sendo discriminada em toda cidade por ter perdido sua virgindade com seu noivo e ainda não ser casada. Até onde pude entender pelo correr das cenas, Lindinalva foi abusada pelo noivo, que forçou relações com ela, mas quando a história se espalhou pela a cidade a "culpa" ficou sendo apenas dela. E aí eu ouço, na novela, frases como: "Meu neto é homem, você que não devia ter cedido." "A culpa é sempre da mulher." Ao ouvir isso, sinto urticárias (sério!). Ok, você pode vir com o argumento: é só uma novela, é ficção. Sim, é ficção, mas de certa forma, é nossa história também. Vamos contextualizar o assunto, para eu conseguir chegar onde quero com esse lero lero todo:
Essa novela é baseada no livro Gabriela, Cravo e Canela de Jorge Amado, a história se passa em meados da década de 20, em Ilhéus, Bahia, época do auge no cultivo do cacau. Tempo de coronelismo, onde mulheres não tinham voz nem vez e eram claramente discriminadas, diminuídas e reprimidas, até mesmo pelas próprias mulheres. Caso você não tenha muita noção de como era isso, basta assistir a novela um dia você vai perceber do que estou falando.
Não estou aqui querendo fazer propaganda para a novela, longe disso, afinal sei que existe muito preconceito com novelas globais, apesar das surpreendentes popularidades das mesmas. Ninguém gosta de novelas, mas todo mundo assiste, é tipo BBB. Mas o que quero trazendo a novela Gabriela como exemplo é suscitar discussão, uma discussão que achei bastante pertinente de ser feita depois de refletir sobre o assunto.
E aí eu chego onde gostaria de chegar: Gabriela apresenta a nós uma boa oportunidade para pensarmos e refletirmos sobre um assunto muito importante: o machismo e discriminação de gênero em como este influenciou e ainda influencia (e muito) a sociedade até os dias de hoje, pois continuamos vivendo em uma sociedade machista, preconceituosa que coisifica a mulher ao mesmo tempo que a repreende. Sabemos muito bem que essa discriminação de gênero não nasceu ali, na década de 20, naquele espaço e tempo específico, e que é uma herança histórica de séculos, e por isso acho que não me assusto tanto com o fato de não ter mudado quase nada dessa época retrógrada pra cá. Pois, da mesma forma ocorre com o preconceito com negros (também conhecido como racismo), que é secular e até hoje a sociedade não conseguiu se livrar totalmente dele. A humanidade leva tempo para progredir... Ok que no Brasil esse tempo demora um pouquinho mais, mas tenho fé... um dia muda.
Contudo,é importante salientar que quando eu digo que não me assusto com o fato de não ter havido muitas mudanças nesse sentido, não quero que pensem, em hipótese alguma, que isso seja sinônimo de achar toda essa situação natural, normal. NÃO! Eu definitivamente não acho machismo natural, muito menos normal, e por isso minha indignação. E é exatamente neste ponto que eu quero chegar com os meus devaneios sobre o assunto. Não é "normal" naturalizar esse assunto, não é normal achar que a mulher de fato é "menos": vale menos, merece menos que o homem. Não é normal e eu diria mais, é misógino. E é sobre isso que estou propondo que pensemos, um pouquinho mais. E se, por acaso, ainda pensam que isso é normal, ouso então em citar Manoel de Barros quando ele diz: "Desfazer o normal há de ser uma norma." e que assim seja! Bora desfazer esse "normal".
Não é difícil ainda encontrar, e não são poucos os casos, de mulheres sendo discriminadas, recriminadas e culpabilizadas por terem sofrido abuso sexual, "tava de saia curta, pediu para ser abusada". Sim, frases como estas, bem parecidas com as da novela ditas da década de 20, são pronunciadas em alto e bom som em pleno século 21. Se isso não é um retrocesso, eu não sei mais o que é.
Sei também que devemos reconhecer que de algum tempo para cá as coisas vem evoluindo consideravelmente e que, por mais que ainda haja resistência, as mulheres estão lutando muito por sua libertação e por um mundo menos machista. Graças a todos os santos, orixás e a nós, mulheres que lutamos muito por isso, há algum tempo já podemos votar e temos consideravelmente mais voz do que há décadas atrás. Todavia, a mulher ainda sofre e muito com um tipo de preconceito que, em minha opinião, tem sido o mais difícil de lidar: repressão e discriminação sexual. Digo mais difícil, pois ele ainda existe entre as próprias mulheres e não só dos homens em relação a elas. As mulheres ainda corroboram com toda a teoria machista da mulher em relação ao sexo, seja em que sentido for. Por isso, que penso que ainda temos muito o que caminhar até chegar em uma equidade de direito de gêneros de fato!
Em pleno ano de 2012, as mulheres não podem gostar de sexo, as que assumem gostam são consideradas putas; mulher não pode usar qualquer tipo de roupa, as que usam saia/roupas curtas também são putas (assim como na década de 20, só mudava a denominação: eram quengas). Mulher que trai o marido é puta, homem que trai a esposa é garanhão, pegador, é colocado em um pedestal. Tal e qual no tempo dos coronéis do Bataclã de Gabriela. E, ao meu ver, o pior de todos: mulher é estuprada porque quer, olha as roupas que ela usa...olha a forma que ela age. PeloamordeDeus! Eu ainda não consigo compreender como pode existir pessoas que pensam dessa forma. Na verdade consigo, afinal, temos muita herança para que pensemos assim, mas o fato de "nosso passado nos condenar" não significa que não podemos nem devemos mudar e evoluir nosso pensamento. Vamos pensar um pouquinho minha gente, onde é que tudo isso faz sentido? Porque é que tudo isso até hoje faz sentido na grande massa? Na minha humilde opinião a resposta é simples: pouca discussão sobre o assunto. As pessoas tem uma mania feia de reproduzirem o que ouvem sem nem ao menos passar por um filtro. Não se pensa sobre o que se diz e o que se faz, não se reflete. Nada se cria, tudo se copia... e assim vamos caminhando, com pensamentos retrógrados, machistas e muito preconceituosos.
Então vos pergunto, será mesmo que evoluímos muito de décadas atrás para cá? Será que as mulheres atualmente estão realmente livre dos rótulos, diminuições e repressões de anos atrás? Particularmente tenho minhas dúvidas.
Mas, porém, contudo, todavia e entretanto, para nossa alegria (hehe) existem muitas mulheres (e muitos homens também, não coloco todos no balaio não) que não se conformam com essa repressão e discriminação insana e andam se mobilizando por aí... mundo a fora, tentando mudar de alguma forma esses estigmas que pairam sobre nós. Em resposta a esse machismo e discriminação contra a mulher surge a Marcha das Vadias
Como você mesmo/mesma pode ler aí no link da Wikipédia, a marcha surgiu no Canadá contra a ideia de que mulheres provocam seus estupros por se vestirem feito "vadias" (sim, pode acreditar que isso foi dito por um policial sobre uma menina que foi estuprada e estava de roupa curta). Não demorou muito para a manifestação ganhar o mundo né, as mulheres estão há (muitos) anos com o grito de "liberdade ou morte" engasgado. E aí foi como soltar uma faísca e um campo cheio de querosene... as mulheres gritaram, encheram as ruas, pintaram cartazes e os corpos para dizerem para quem quiser e não quiser ouvir: Somos livres!
E aí que  com todas essas atitudes ativas das mulheres em relação as situações inferiores que são impostas a elas, surge a pergunta que não quer calar é: será que a partir de agora as coisas vão mudar da água para o vinho para as mulheres? Eu, particularmente, tenho minhas sérias dúvidas, como disse lá em cima, a sociedade progride "a passos de formiga e sem vontade".Mas, ao mesmo tempo, sei também que essa práxis (ação/reflexão) já foi um bom começo... afinal, temos que começar de algum lugar não é? E então vamos lá, rumo ao respeito genuíno pelas mulheres, rumo a liberdade de fato, principalmente, rumo a democracia em relação a nos... no sentido lato da palavra.



O que eu gostaria com esse post é semear como é interessante e importante pensar, de onde vem nossas heranças para compreender algumas situações atuais, entender a história para compreender onde ela culmina atualmente. E principalmente mostrar um pouco, como esse machismo exacerbado apresentado na novela Gabriela fez e infelizmente ainda faz parte de nosso cotidiano, mas que de alguma forma, já tem muita gente empenhada em mudar a situação. Que assim seja, amém!



Obs: Não costumo dizer que sou feminista, acho que para se considerar como tal é necessário uma postura e comprometimento muito maior do que eu tenho atualmente, mas principalmente, porque eu não sou muito fã dos rótulos. Mas sou sim, uma defensora assídua dos direitos das mulheres, e assim pretendo continuar. Caso você tenha curiosidade de ler uma feminista de verdade falando (ou melhor, escrevendo), sugiro Escreva Lola, escreva.... que é o blog de uma professora da Federal do Ceará que, escreve muito melhor do que eu  sobre gêneros, minorias e suas discriminações.

10 de julho de 2012

"Guest Post": Sobre o excesso de diagnósticos psiquiátricos e prescrição de psicofármacos a crianças.

Este texto que estou postando hoje, acabei de ler na página no Facebook da blogueira Ligia Sena (o texto é dela).  Por se tratar de um assunto muito presente na área que escolhi trabalhar (afinal, tem MUITO psicólogo contribuindo para essa medicalização desmedida em crianças), e que me capta, me interessa a discussão e os questionamentos sobre. Eu compartilho em absolutamente tudo o que está escrito, por isso, achei interessante postá-lo na íntegra, fazendo minhas as palavras de Ligia. Com isso, fiz deste, um "guest post" (entre aspas, já que ela não fez o texto exatamente pro meu blog), uma vez que a autora mesma me disse que o texto era de domínio público, então me senti no direito de me apropriar e compartilhar. Leiam até o final, precisamos pensar, refletir e questionar sobre que infância é essa que estamos ajudando a construir.

"Estamos falando sobre a medicalização da infância e o excesso de diagnósticos psiquiátricos – como a hiperatividade e o déficit de atenção – e de prescrição de psicofármacos, como o metilfenidato. 
Qualquer pessoa que compartilhar a informação de que o comportamento “inadequado” de uma criança pode estar associado a um transtorno psiquiátrico está contribuindo para a psiquiatrização da infância e de comportamentos absolutamente normais, está contribuindo para que nossas crianças sejam vítimas do abuso de fármacos.
Vamos falar então de "crianças que precisam de medicamentos psicotrópicos de fato". Será que elas existem? Em anos de estudo, pesquisa, interesse e aulas ministradas sobre tema, tive contato com muitas crianças diagnosticadas como hiperativas e medicadas. E todas - eu disse TODAS - estavam sendo medicadas em função dos desejos, ainda que não manifestos, de seus pais, educadores e outros profissionais. Para a pergunta: "Por que você o levou no psiquiatra?" ou "Por que ele está sendo medicado?" as respostas mais comuns - muitíssimo comuns - são: "Porque ele estava me deixando louca!", ou "Porque ele não se adaptava à escola de jeito nenhum", ou "Porque ele não parava quieto", e afins. 
Nenhum desses motivos representa qualquer indicativo de transtorno mental. 
É preciso SEMPRE lembrar que ser diagnosticado com hiperatividade É TORNAR-SE UM PACIENTE PSIQUIÁTRICO. Aquela criança, que já é vista como problemática, de uma hora pra outra passa a ter um TRANSTORNO MENTAL, passa a ser um PACIENTE PSIQUIÁTRICO. 
Vamos pensar no que isso pode causar à autoestima dessa criança, desse adolescente? Vamos pensar o que se tornar dependente de medicação tarja preta (que é uma droga psicotrópica) fará com essa criança? O estigma que vai acompanhá-lo? As alterações neuroendócrinas? E por que? Porque ele era ativo demais, agitado demais, dava trabalho.
Quando dizermos "ativo demais" estamos comparando-o a outras crianças, ditas "normais". O que é a normalidade? Para mim, normal é ver criança ativa, não criança dopada. 
Não há um consenso do que seja a normalidade. Eu sou normal, você é normal, e somos muito diferentes. E por que somos diferentes um precisa de medicação e o outra não? 
E se eu, que sou muito agitada, tenho pais que sabem lidar eficientemente com minha agitação? E se eu estou em uma escola que respeita minhas diferenças? Eu escapo do medicamento psicotrópico. Mas se eu não tenho nada disso, então serei medicado para me enquadrar numa normalidade que não existe. Sofro muitas vezes: uma vez por não contar com condições que acolham minha diferença (pais e escola preparados), outra vez por ser rotulado psiquiatricamente, outra vez por ser medicado e ter todas as minhas funções mentais alteradas (porque é isso o que faz uma droga que age no cérebro), e outra vez porque me tornarei dependente (sim, me tornarei), e mais uma vez no futuro quando, afastado da medicação, eu não souber lidar com minha agitação, com minha diferença, apenas porque ao invés de me ajudarem a lidar com ela, me medicaram. 
Falando de evidências científicas, existem artigos experimentais mostrando que o uso de metilfenidato na infância (a Ritalina, Concerta e afins - olha o nome, Concerta... como se estivesse quebrado) predispõe ao abuso de álcool na idade adulta, principalmente no sexo feminino. E outros ainda afirmam que o diagnóstico de hiperatividade na infância está associado ao diagnóstico de depressão no futuro. Não precisamos recorrer ao cérebro pra entender como a hiperatividade se transformou em depressão, basta entender o que viveu essa pessoa a ponto de ter se tornado deprimido. Mas recorrendo ao cérebro, a mudança que a droga promove pode mesmo disparar um gatilho desconhecido e, no futuro, causar um outro transtorno psiquiátrico. 
Vamos falar de história? Por que a descoberta desse transtorno é tão relativamente recente? Porque hoje temos drogas que controlam esse comportamento. Então, em termos bem gerais, o metilfenidato não cura ninguém, não trata ninguém. Ele só MODELA a criança, a pessoa, ao que esperam dela. É como se, tendo febres fortes recorrentes, apenas déssemos antitérmico a vida inteira, sem saber o porquê da febre. Por que uma criança é agitada? Por que ela está com dificuldades de adaptação? Como canalizar a agitação? Como ensiná-lo a lidar com isso? São perguntas que cujas respostas necessitam de uma postura ativa. Que nem sempre existe... 
Quem trabalha nessa área diz que o Calvin (aquele personagem, amigo do Haroldo) é o símbolo da criança dignosticada como hiperativa. E que criança interessante! Além de ser agitado, Calvin é questionador, problematizador, respondão e arteiro. Coisas de criança saudável, muito saudável, não doente. E já notaram como são seus pais? Entediantes, rabugentos, nunca brincam com ele, estão sempre alheios, em suas atividades, sempre criticando ou gritando com ele. Isso não é coincidência. 
Em uma das tirinhas, Calvin aparece sendo medicado: ele não brinca mais, não cria mais, não é mais interessante e sua imaginação foi morta – representada pelo desaparecimento do amigo imaginário, seu bicho de estimação Haroldo, que em condições normais tinha vida. É isso o que acontece com crianças medicadas com modeladores do comportamento.
O dia em que encontrar uma criança que realmente tiver um transtorno como esse, a ponto de conseguir ver nele um paciente psiquiátrico, poderei rever essa posição. 
Eu ainda não encontrei essa criança. Embora já tenha encontrado tantas medicadas..."

4 de julho de 2012

Sobre sonhos e utopias...


Há tempos busco por meu lugar no mundo (este blog faz parte de uma destas tentativas). E este buscar, significa encontrar meu nicho, algo com que faça sentido com o que penso e acredito. Um lugar onde eu possa ser o que quero ser e não o que o mundo quer que eu seja. Um lugar onde o que eu penso, sinto e acredito sejam respeitados.
O título do meu primeiro post sobre "peixe fora d'água, borboletas no aquário" tem um pouco haver com isso pois, muitas vezes é como eu me sinto nesse mundão de meu Deus, uma pessoa fora do lugar, ou então um lugar fora da pessoa. 

Pois, pense comigo: alguém simpatizante de esquerda, que acredita nas pessoas e em suas capacidades de serem mais do que elas são, principalmente quando há mediação de outros; que não acredita em situações postas e dadas como imutáveis e  enxerga a importância do contexto histórico na vida de qualquer sujeito; que acredita que a ciência não tem a verdade/sabedoria absoluta do universo e que outros conhecimentos acrescentam tanto quanto ela; que acredita na importância de estar atento ao outro de forma genuína, respeitando-o em suas escolhas; que acredita no poder da conscientização e da dialética da vida, uma vez que construímos nossos caminhos a cada dia; e principalmente, que acredita que, para que esse mundo comece a ser um pouquinho melhor, basta apenas começarmos a olhar mais para as pessoas e menos para as coisas (e seus valores).
Pessoas assim, na maioria das vezes são apontadas como sonhadoras, românticas e utópicas. E talvez eu seja tudo isso mesmo (e mais um pouco). Mas, há de concordar comigo que, não é tão simples quanto parece, para alguém que pense desta forma, conseguir se "encaixar" em um sistema, em que o que se prega justamente o contrário. É difícil ser o peixinho que rema contra a maré. Uma maré grande e assustadora. É difícil, mas não impossível. Não é impossível, quando não estamos sozinhos, quando somos cardumes.
E por isso que, espero encontrar um espaço em que eu possa dizer o que penso e ser respeitada por isso. Que seja possível travar discussões (inclusive de ideias contrárias) e que todos possam crescer com isso, sem que discussões virem verdadeiras guerras ideológicas. Busco por um lugar mais tolerante e flexível, que incentive as diferenças e não as discrimine.
Um lugar onde as pessoas possam ser o que elas desejam ser. E que as crianças ainda tenham espaço para imaginar e sonhar.
Busca constante por mais arte e mais  experiências estéticas. Onde seja possível suspender os sentidos e parar para refletir.
Lutar por uma sociedade que pense mais e obedeça menos, que escute mais e julgue menos, que se conscientize mais e acate menos, que viva mais e exista menos.
Sonhos? Utopias? Talvez. Mas eu acho tudo isso um motivo bom o bastante para se lutar:  lutar pela arte da vida e por mais arte na vida.
E como uma forma de resumir e finalizar artísticamente tudo isso que estou dizendo, posto aqui o poema de um grande amigo e colega de profissão, Diogo Rezende, e posso dizer que o incluo neste cardume que sei que existe, de pessoas que ainda acreditam em algo melhor do que temos hoje.
Coloco este poema, pois se encaixou feito luva com este texto e também com o que espero e acredito.
Eu gosto particularmente disto, da forma como a arte diz, de um jeito muito mais orquestrado, tudo aquilo que gostaríamos de dizer.

Considerações profissionais


quando crescer quero ser ninguém

ser um grande nada

nadar sem pressão atmosférica

galgar alcançar o vácuo
e sempre ter a sensação de vazio.
completude não completa.

vou viver de poesia
e a poesia sim,
vai transformar o vil metal
em gotas de pano
que pingam em meus olhos,
e me vendam para a vida privada
mas imputam cores macias
para deliciosas e imprevistas possibilidades.

vou ser um ser humano profissional
técnico do amor
especialista em minha amante
doutor em compartilhar risadas no escuro do quarto
phd em carinhos e carícias no monótono domingo.

quero ser uma pessoa em espiral
que sobe em círculos rumo a felicidade
a ovelha utópica desgarrada,
rasgada
que vai deixar de servir o servente
e mostrar que praias e temperos
não são nada sem o tato,
só o tato faz ver e sentir o gosto da vida.

o paladar. o mar.
uma pitada de sal.



E assim finalizo, dizendo que quero continuar sendo a ovelha utópica desgarrada, rasgada.


* Tradução da foto: Não tenho medo que o mundo acabe em 2012... tenho medo que ele continue sem mudar nada.