No capítulo de hoje mostrou, basicamente, o drama (acho legal falar assim em relação a personagens de novelas haha) da personagem Lindinalva (Giovanna Lancelotti) sendo discriminada em toda cidade por ter perdido sua virgindade com seu noivo e ainda não ser casada. Até onde pude entender pelo correr das cenas, Lindinalva foi abusada pelo noivo, que forçou relações com ela, mas quando a história se espalhou pela a cidade a "culpa" ficou sendo apenas dela. E aí eu ouço, na novela, frases como: "Meu neto é homem, você que não devia ter cedido." "A culpa é sempre da mulher." Ao ouvir isso, sinto urticárias (sério!). Ok, você pode vir com o argumento: é só uma novela, é ficção. Sim, é ficção, mas de certa forma, é nossa história também. Vamos contextualizar o assunto, para eu conseguir chegar onde quero com esse lero lero todo:
Não estou aqui querendo fazer propaganda para a novela, longe disso, afinal sei que existe muito preconceito com novelas globais, apesar das surpreendentes popularidades das mesmas. Ninguém gosta de novelas, mas todo mundo assiste, é tipo BBB. Mas o que quero trazendo a novela Gabriela como exemplo é suscitar discussão, uma discussão que achei bastante pertinente de ser feita depois de refletir sobre o assunto.
E aí eu chego onde gostaria de chegar: Gabriela apresenta a nós uma boa oportunidade para pensarmos e refletirmos sobre um assunto muito importante: o machismo e discriminação de gênero em como este influenciou e ainda influencia (e muito) a sociedade até os dias de hoje, pois continuamos vivendo em uma sociedade machista, preconceituosa que coisifica a mulher ao mesmo tempo que a repreende. Sabemos muito bem que essa discriminação de gênero não nasceu ali, na década de 20, naquele espaço e tempo específico, e que é uma herança histórica de séculos, e por isso acho que não me assusto tanto com o fato de não ter mudado quase nada dessa época retrógrada pra cá. Pois, da mesma forma ocorre com o preconceito com negros (também conhecido como racismo), que é secular e até hoje a sociedade não conseguiu se livrar totalmente dele. A humanidade leva tempo para progredir... Ok que no Brasil esse tempo demora um pouquinho mais, mas tenho fé... um dia muda.
Contudo,é importante salientar que quando eu digo que não me assusto com o fato de não ter havido muitas mudanças nesse sentido, não quero que pensem, em hipótese alguma, que isso seja sinônimo de achar toda essa situação natural, normal. NÃO! Eu definitivamente não acho machismo natural, muito menos normal, e por isso minha indignação. E é exatamente neste ponto que eu quero chegar com os meus devaneios sobre o assunto. Não é "normal" naturalizar esse assunto, não é normal achar que a mulher de fato é "menos": vale menos, merece menos que o homem. Não é normal e eu diria mais, é misógino. E é sobre isso que estou propondo que pensemos, um pouquinho mais. E se, por acaso, ainda pensam que isso é normal, ouso então em citar Manoel de Barros quando ele diz: "Desfazer o normal há de ser uma norma." e que assim seja! Bora desfazer esse "normal".
Não é difícil ainda encontrar, e não são poucos os casos, de mulheres sendo discriminadas, recriminadas e culpabilizadas por terem sofrido abuso sexual, "tava de saia curta, pediu para ser abusada". Sim, frases como estas, bem parecidas com as da novela ditas da década de 20, são pronunciadas em alto e bom som em pleno século 21. Se isso não é um retrocesso, eu não sei mais o que é.
Sei também que devemos reconhecer que de algum tempo para cá as coisas vem evoluindo consideravelmente e que, por mais que ainda haja resistência, as mulheres estão lutando muito por sua libertação e por um mundo menos machista. Graças a todos os santos, orixás e a nós, mulheres que lutamos muito por isso, há algum tempo já podemos votar e temos consideravelmente mais voz do que há décadas atrás. Todavia, a mulher ainda sofre e muito com um tipo de preconceito que, em minha opinião, tem sido o mais difícil de lidar: repressão e discriminação sexual. Digo mais difícil, pois ele ainda existe entre as próprias mulheres e não só dos homens em relação a elas. As mulheres ainda corroboram com toda a teoria machista da mulher em relação ao sexo, seja em que sentido for. Por isso, que penso que ainda temos muito o que caminhar até chegar em uma equidade de direito de gêneros de fato!
Em pleno ano de 2012, as mulheres não podem gostar de sexo, as que assumem gostam são consideradas putas; mulher não pode usar qualquer tipo de roupa, as que usam saia/roupas curtas também são putas (assim como na década de 20, só mudava a denominação: eram quengas). Mulher que trai o marido é puta, homem que trai a esposa é garanhão, pegador, é colocado em um pedestal. Tal e qual no tempo dos coronéis do Bataclã de Gabriela. E, ao meu ver, o pior de todos: mulher é estuprada porque quer, olha as roupas que ela usa...olha a forma que ela age. PeloamordeDeus! Eu ainda não consigo compreender como pode existir pessoas que pensam dessa forma. Na verdade consigo, afinal, temos muita herança para que pensemos assim, mas o fato de "nosso passado nos condenar" não significa que não podemos nem devemos mudar e evoluir nosso pensamento. Vamos pensar um pouquinho minha gente, onde é que tudo isso faz sentido? Porque é que tudo isso até hoje faz sentido na grande massa? Na minha humilde opinião a resposta é simples: pouca discussão sobre o assunto. As pessoas tem uma mania feia de reproduzirem o que ouvem sem nem ao menos passar por um filtro. Não se pensa sobre o que se diz e o que se faz, não se reflete. Nada se cria, tudo se copia... e assim vamos caminhando, com pensamentos retrógrados, machistas e muito preconceituosos.
Então vos pergunto, será mesmo que evoluímos muito de décadas atrás para cá? Será que as mulheres atualmente estão realmente livre dos rótulos, diminuições e repressões de anos atrás? Particularmente tenho minhas dúvidas.
Mas, porém, contudo, todavia e entretanto, para nossa alegria (hehe) existem muitas mulheres (e muitos homens também, não coloco todos no balaio não) que não se conformam com essa repressão e discriminação insana e andam se mobilizando por aí... mundo a fora, tentando mudar de alguma forma esses estigmas que pairam sobre nós. Em resposta a esse machismo e discriminação contra a mulher surge a Marcha das Vadias.
Como você mesmo/mesma pode ler aí no link da Wikipédia, a marcha surgiu no Canadá contra a ideia de que mulheres provocam seus estupros por se vestirem feito "vadias" (sim, pode acreditar que isso foi dito por um policial sobre uma menina que foi estuprada e estava de roupa curta). Não demorou muito para a manifestação ganhar o mundo né, as mulheres estão há (muitos) anos com o grito de "liberdade ou morte" engasgado. E aí foi como soltar uma faísca e um campo cheio de querosene... as mulheres gritaram, encheram as ruas, pintaram cartazes e os corpos para dizerem para quem quiser e não quiser ouvir: Somos livres!E aí que com todas essas atitudes ativas das mulheres em relação as situações inferiores que são impostas a elas, surge a pergunta que não quer calar é: será que a partir de agora as coisas vão mudar da água para o vinho para as mulheres? Eu, particularmente, tenho minhas sérias dúvidas, como disse lá em cima, a sociedade progride "a passos de formiga e sem vontade".Mas, ao mesmo tempo, sei também que essa práxis (ação/reflexão) já foi um bom começo... afinal, temos que começar de algum lugar não é? E então vamos lá, rumo ao respeito genuíno pelas mulheres, rumo a liberdade de fato, principalmente, rumo a democracia em relação a nos... no sentido lato da palavra.
O que eu gostaria com esse post é semear como é interessante e importante pensar, de onde vem nossas heranças para compreender algumas situações atuais, entender a história para compreender onde ela culmina atualmente. E principalmente mostrar um pouco, como esse machismo exacerbado apresentado na novela Gabriela fez e infelizmente ainda faz parte de nosso cotidiano, mas que de alguma forma, já tem muita gente empenhada em mudar a situação. Que assim seja, amém!
Obs: Não costumo dizer que sou feminista, acho que para se considerar como tal é necessário uma postura e comprometimento muito maior do que eu tenho atualmente, mas principalmente, porque eu não sou muito fã dos rótulos. Mas sou sim, uma defensora assídua dos direitos das mulheres, e assim pretendo continuar. Caso você tenha curiosidade de ler uma feminista de verdade falando (ou melhor, escrevendo), sugiro Escreva Lola, escreva.... que é o blog de uma professora da Federal do Ceará que, escreve muito melhor do que eu sobre gêneros, minorias e suas discriminações.








