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10 de julho de 2012

"Guest Post": Sobre o excesso de diagnósticos psiquiátricos e prescrição de psicofármacos a crianças.

Este texto que estou postando hoje, acabei de ler na página no Facebook da blogueira Ligia Sena (o texto é dela).  Por se tratar de um assunto muito presente na área que escolhi trabalhar (afinal, tem MUITO psicólogo contribuindo para essa medicalização desmedida em crianças), e que me capta, me interessa a discussão e os questionamentos sobre. Eu compartilho em absolutamente tudo o que está escrito, por isso, achei interessante postá-lo na íntegra, fazendo minhas as palavras de Ligia. Com isso, fiz deste, um "guest post" (entre aspas, já que ela não fez o texto exatamente pro meu blog), uma vez que a autora mesma me disse que o texto era de domínio público, então me senti no direito de me apropriar e compartilhar. Leiam até o final, precisamos pensar, refletir e questionar sobre que infância é essa que estamos ajudando a construir.

"Estamos falando sobre a medicalização da infância e o excesso de diagnósticos psiquiátricos – como a hiperatividade e o déficit de atenção – e de prescrição de psicofármacos, como o metilfenidato. 
Qualquer pessoa que compartilhar a informação de que o comportamento “inadequado” de uma criança pode estar associado a um transtorno psiquiátrico está contribuindo para a psiquiatrização da infância e de comportamentos absolutamente normais, está contribuindo para que nossas crianças sejam vítimas do abuso de fármacos.
Vamos falar então de "crianças que precisam de medicamentos psicotrópicos de fato". Será que elas existem? Em anos de estudo, pesquisa, interesse e aulas ministradas sobre tema, tive contato com muitas crianças diagnosticadas como hiperativas e medicadas. E todas - eu disse TODAS - estavam sendo medicadas em função dos desejos, ainda que não manifestos, de seus pais, educadores e outros profissionais. Para a pergunta: "Por que você o levou no psiquiatra?" ou "Por que ele está sendo medicado?" as respostas mais comuns - muitíssimo comuns - são: "Porque ele estava me deixando louca!", ou "Porque ele não se adaptava à escola de jeito nenhum", ou "Porque ele não parava quieto", e afins. 
Nenhum desses motivos representa qualquer indicativo de transtorno mental. 
É preciso SEMPRE lembrar que ser diagnosticado com hiperatividade É TORNAR-SE UM PACIENTE PSIQUIÁTRICO. Aquela criança, que já é vista como problemática, de uma hora pra outra passa a ter um TRANSTORNO MENTAL, passa a ser um PACIENTE PSIQUIÁTRICO. 
Vamos pensar no que isso pode causar à autoestima dessa criança, desse adolescente? Vamos pensar o que se tornar dependente de medicação tarja preta (que é uma droga psicotrópica) fará com essa criança? O estigma que vai acompanhá-lo? As alterações neuroendócrinas? E por que? Porque ele era ativo demais, agitado demais, dava trabalho.
Quando dizermos "ativo demais" estamos comparando-o a outras crianças, ditas "normais". O que é a normalidade? Para mim, normal é ver criança ativa, não criança dopada. 
Não há um consenso do que seja a normalidade. Eu sou normal, você é normal, e somos muito diferentes. E por que somos diferentes um precisa de medicação e o outra não? 
E se eu, que sou muito agitada, tenho pais que sabem lidar eficientemente com minha agitação? E se eu estou em uma escola que respeita minhas diferenças? Eu escapo do medicamento psicotrópico. Mas se eu não tenho nada disso, então serei medicado para me enquadrar numa normalidade que não existe. Sofro muitas vezes: uma vez por não contar com condições que acolham minha diferença (pais e escola preparados), outra vez por ser rotulado psiquiatricamente, outra vez por ser medicado e ter todas as minhas funções mentais alteradas (porque é isso o que faz uma droga que age no cérebro), e outra vez porque me tornarei dependente (sim, me tornarei), e mais uma vez no futuro quando, afastado da medicação, eu não souber lidar com minha agitação, com minha diferença, apenas porque ao invés de me ajudarem a lidar com ela, me medicaram. 
Falando de evidências científicas, existem artigos experimentais mostrando que o uso de metilfenidato na infância (a Ritalina, Concerta e afins - olha o nome, Concerta... como se estivesse quebrado) predispõe ao abuso de álcool na idade adulta, principalmente no sexo feminino. E outros ainda afirmam que o diagnóstico de hiperatividade na infância está associado ao diagnóstico de depressão no futuro. Não precisamos recorrer ao cérebro pra entender como a hiperatividade se transformou em depressão, basta entender o que viveu essa pessoa a ponto de ter se tornado deprimido. Mas recorrendo ao cérebro, a mudança que a droga promove pode mesmo disparar um gatilho desconhecido e, no futuro, causar um outro transtorno psiquiátrico. 
Vamos falar de história? Por que a descoberta desse transtorno é tão relativamente recente? Porque hoje temos drogas que controlam esse comportamento. Então, em termos bem gerais, o metilfenidato não cura ninguém, não trata ninguém. Ele só MODELA a criança, a pessoa, ao que esperam dela. É como se, tendo febres fortes recorrentes, apenas déssemos antitérmico a vida inteira, sem saber o porquê da febre. Por que uma criança é agitada? Por que ela está com dificuldades de adaptação? Como canalizar a agitação? Como ensiná-lo a lidar com isso? São perguntas que cujas respostas necessitam de uma postura ativa. Que nem sempre existe... 
Quem trabalha nessa área diz que o Calvin (aquele personagem, amigo do Haroldo) é o símbolo da criança dignosticada como hiperativa. E que criança interessante! Além de ser agitado, Calvin é questionador, problematizador, respondão e arteiro. Coisas de criança saudável, muito saudável, não doente. E já notaram como são seus pais? Entediantes, rabugentos, nunca brincam com ele, estão sempre alheios, em suas atividades, sempre criticando ou gritando com ele. Isso não é coincidência. 
Em uma das tirinhas, Calvin aparece sendo medicado: ele não brinca mais, não cria mais, não é mais interessante e sua imaginação foi morta – representada pelo desaparecimento do amigo imaginário, seu bicho de estimação Haroldo, que em condições normais tinha vida. É isso o que acontece com crianças medicadas com modeladores do comportamento.
O dia em que encontrar uma criança que realmente tiver um transtorno como esse, a ponto de conseguir ver nele um paciente psiquiátrico, poderei rever essa posição. 
Eu ainda não encontrei essa criança. Embora já tenha encontrado tantas medicadas..."

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