Enfim, mas no fundo no fundo, o que sempre me incomodou mais na maioria dessas histórias era a passividade das princesas. Já repararam que elas nunca tiveram nenhuma ação ativa em relação a mudança dos seus "destinos"? Tinham sempre que esperar pela chegada de um príncipe encantado para salvá-las de todo mal que existia no mundo. Elas mesmas, nunca fizeram patavinas.
Até aí ,dá pra ter uma noção de qual é minha crítica né? O incentivo ao modo estereotipado de enxergar as mulheres: passivas, desempoderadas que tem que esperar por um homem para que suas vidas fossem de fato, boas. Não sejamos ingênuos em pensar que essas histórias não querem passar nenhum tipo de mensagem e que elas são inocentes e estão aí apenas para distrair as crianças. Elas são criadas por seres humanos, e por tanto, uma construção social vindo de um histórico, de uma cultura, de um contexto. Tais histórias querem, de forma subliminar ou não, introjetar ideias para manter um modelo de sociedade. Você imagina qual modelo seja este?
Pois então, eis que hoje assisti o filme "Branca de Neve e o Caçador" que, confesso, estava resistindo bastante por 2 motivos:
1- justamente pela minha rusga com os contos de fadas, achei que seria só mais uma versão chatinha.
2- por ter um certo preconceito e não gostar muito da atriz principal, a Kirsten Stewert, sim, por causa do Crepúsculo.
Mas eis que hoje, por total falta de opção, foi o que restou ao meu domingo. E não é que o filme me surpreendeu?!
Além de ser uma trama que te prende e a Charlize Theron está mais diva do que nunca no papel de Rainha Má, mas principalmente, por que o filme saiu do tradicional "princesa passiva que aguarda o príncipe encantado" e traz uma versão de uma Branca de Neve guerreira, corajosa, que toma as rédeas da situação e que se põe a frente da luta para recuperar o seu reino. Ela foge dos vestidinhos cheios de frufrus e dos cabelos impecavelmente arrumados que as princesas costumam usar, e aparece o filme todo com uma roupa que lhe dá um ar de força e determinação. Sem falar que no final (me desculpem quem ainda não assistiu e está achando que eu vou queimar o final do filme), ela não se casa com o príncipe encantado e "vive feliz para sempre". Não. Pelo contrário ela é coroada rainha de seu reino, triunfante e sem par romântico. Mesmo que durante todo o filme a sugestão fosse um certo affair entre ela e o caçador. E esse tal caçador foi outra surpresa, justamente por ter sido sugerido durante todo filme como possível par de Branca de Neve, ele foge totalmente do padrão "príncipe encantado" sendo um bêbado viúvo, com uma postura grosseira e mal educada, que mantém distância apesar de demonstrar afeto.
Logo, exceto pelo enredo base, que obviamente foi o tal "ela é mais bonita que eu, mate-a", a insistente rivalidade entre mulheres que fazem questão de incentivar, o filme saiu do padrão que eu estava esperando, e me surpreendeu de verdade. Sem falar que mesmo com este enredo baseado na busca eterna pela beleza, conseguiram dar um ar dramático bastante interessante, ao ponto de que toda beleza era perseguida e não é apenas a da Branca de Neve e que a loucura da Rainha Ravenna era tamanha, que ela abduz a beleza de todos do reino.
Por fim, terminei de assistir com uma sensação boa, e se tem histórias de conto de fadas que merecem serem contadas, são essas em que as mulheres são empoderada e donas de suas histórias, que as constroem juntamente com os seus pares, seu futuro e seu caminho. Passou da hora de revisitarmos, sob novas lentes, esses contos de fadas arcaicos, machistas e patriarcais.
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