Minha primeira reação foi o espanto. Claro! É um tipo de notícia por mais corriqueira que tem sido ultimamente, é algo que nunca esperamos ler. Pelo menos eu, na imensa fé que ainda tenho no ser humano, não espero.
Pois bem, mas passado o primeiro "susto", parei para refletir sobre o assunto: Que professores são esses que estamos ajudando a formar neste país? Que educadores são esses que sugerem agressão contra uma criança?
E assim, neste movimento de indignação continuei a ler o artigo, e conforme dou andamento a leitura minha indignação só faz aumentar e me fazendo questionar cada vez mais: é essa educação que queremos dar para o "nossos futuros"? É o que esperamos para estas crianças que, amanhã, estarão no poder, na política e nas escolas? É isso que queremos que eles aprendam? Que raio de educação é esta que deseduca?
E então, me lembrei de um livro que estou lendo que se chama Filosofia para a Formação da Criança da Paula Ramos de Oliveira (excelente, diga-se de passagem), que já no primeiro capítulo problematiza diversas questões do nosso sistema de educação atual, dentre estas, ela apresenta sua percepção desta educação que deseduca, com pode ser observado no trecho a seguir: "(...) vemos que a concepção positivista da educação explicita suas mazelas por um fazer pedagógico que muito mais deseduca do que educa: trata-se da deseducação travestida, fantasiada de educação."¹
E foi com esta citação em mente que continuei a ler o texto do G1. E lá diz que professora sugere as tais varadas e cintadas para educar o garoto, pois ele tem apresentado comportamentos inadequados em sala de aula. Só de ler a palavra "inadequado" outra enxurrada de perguntas, questionamentos e indignação tomaram conta do meu balãozinho do pensamento: comportamento inadequado? Inadequado para quem? O que é ser adequado em sala de aula? E se é, é adequado para quem?
Todas essas questões (e mais algumas) perpassam toda minha formação enquanto futura psicóloga e deveria, caso não aconteça, fazer parte da formação de pedagogos. Questionar. Questionar sempre. Parar de agir sem antes pensar no "que" e "como" fazer/falar/agir. Penso que, para além de lutar por melhores condições de salários e melhores remunerações para os professores, temos também que lutar para melhor qualidade dos cursos de Pedagogia do país.
Esta professora, está agindo desta forma não é porque ela é uma pessoa má, uma pessoa ruim e que nasceu assim e vai ser para sempre assim (como a Gabriela). Não. Ela está assim e se está assim, é porque em algum momento na vida dela ela aprendeu a agir assim. Provavelmente em algum momento da vida dessa educadora, ela aprendeu que o jeito de lidar com uma criança é silenciando e humilhando.
A culpa não é dela, a responsabilidade pelos atos sim, mas a culpa não. A culpa é de um sistema educacional defasado. Sistema que tem apenas o interesse de manter o status quo e que faz com que, ao longo de toda vida de um sujeito este, saia da escola sem aprender o que realmente importa: respeito e pensar. E que quando este, decide, por ventura, ser professor, em seu curso universitário nada muda. Continuam com aulas estáticas, lineares, onde se buscam modelos e padrões e recusa as diferenças.
Não há reflexão, e se há, ainda é muito pouca. Não ensina-se a pensar, ensina-se a obedecer. E é contra isso que precisamos lutar. Contra essa educação que deseduca, contra essa formação que estimula a violência e a resolver as coisas no grito. Que ensina que é assim que se resolve as coisas, na base da "cintada" e "varada", ao invés de ensinar a questionar, a fazer perguntas, a negociar sentidos e, principalmente, a respeitar o outro, seja ele quem for.
E para começar a mudar este quadro, eu pego emprestada a citação de uma grande amiga minha, Carol, que defende a ideia de que devemos "sair da roda"², ou seja, quebrar esse circulo vicioso que o sistema insiste em nos afundar, como em areias movediças. Precisamos começar a mudar, pois como eu já disse, as coisas estão assim, mas elas não precisam ser para sempre assim, elas podem e devem ser mudadas.
E você poderia me perguntar: mudadas como? E eu, na humildade legítima da minha pouca experiência te digo: mudando com nossos pequenos comportamentos cotidianos, principalmente com crianças, começando por tratá-las como sujeitos de si, que têm voz e merecem respeito. E principalmente, agindo de forma diferenciada e consciente. Ao invés de gritos, conversas; ao invés de agressão física, questionamentos e construção conjunta de sentidos. Criando mudanças principalmente nas escolas, precisamos de escolas que eduquem, simplesmente. Ensinar a pensar e não a obedecer docilmente sem refletir sobre, ensinar o respeito a partir do exemplo, ou seja, tratando com respeito. Precisamos começar de algum lugar a fazer deste país um lugar mais decente, e esse começo, eu acredito que seja pela educação.
E a grande Mafalda para ilustrar.
Ps: No momento, não pretendo nem entrar na questão da medicalização desta criança, que foi encaminhada a psiquiatras e psicólogos simplesmente por que a escola não tem feito seu papel. Teremos (muitas) outras oportunidades para discutir sobre isso. Infelizmente.
¹Oliveira, P. R. Filosofia para a Formação de Crianças. São Paulo: Pioneira Thompson Learning, 2004. p.4
² Este termo não foi usado exatamente neste sentido quando ouvi/li a Carol dizer, mas senti que coube neste contexto e fez muito sentido e por isso peguei emprestado.

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